quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Verso


Eu vejo poesia no lembrar do passado. E faço força para só lembrar os trechos que rimaram. Como o canto da cigarra anunciando sol para o dia seguinte e a luz dos vagalumes iluminando as asas coloridas e exuberantes das borboletas - todos presos por instantes em um salão de festas de vidro.
Eu vejo poesia em me dar conta do presente. E faço força para só me dar conta dos trechos que rimam. Como a calmaria de ganhar um beijo de boa noite todas as noites, mesmo que algumas nem tão boas sejam.
Eu vejo poesia na amizade. Nos pactos de sangue quando criança, nas promessas mantidas a ferro e fogo, nos perdões e confissões, nas diferenças e cumplicidades. Sem perceber, mantenho só as amizades que rimam. E encaixo uma ou outra, quando vale.
Eu vejo poesia no amor. Mesmo que as palavras não façam sentido e algumas linhas estejam apagadas.


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Me engole

Tenho um quartinho da bagunça ao lado esquerdo do meu subconsciente. E é para lá, mais precisamente para baixo de um tapete que eu, com bastante lucidez, jogo os excessos das minhas necessidades. Porque a gente sabe quando precisa demais, mais do que é justo ou possível. Então é melhor varrer o que sobra. O pó fininho da insegurança se mistura aos fiapos grossos do medo, que se envolvem às cicatrizes e quase transbordam a sujeira. É, às vezes não cabe tudo. Então eu choro, eu sofro. Porque sou muito pequena frente àquele tapete. Me escondo encaixadinha embaixo da cama do quartinho, que me engole.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Tudo ou nada


Tenho muita dificuldade em lidar com o meio termo. Odeio tudo o que é morno. Só tem sentido se queima ou congela. Intensa? Talvez. Inconsequente? Às vezes. Sem limites? Com certeza. E escrevo do sofá, entediada por ter torcido o pé nos saltos altos demais. Eles são sempre altos demais. E a queda segue a lógica - literal e metaforicamente.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Era uma casa...



Quanto vale meu apartamento? Valor venal nenhum caberia nessa resposta. É uma casa bem tortinha. Na sacada não cabe uma rede. Na lavanderia não tem cesto de roupas sujas. Não porque não tem roupa suja pelo apartamento, mas é que elas não caberiam em um único espaço. Mesmo assim, cada tequinho de rodapé instalado ali tem seu valor. E cada dia esse valor é "valorizado" ainda mais. É lá que tenho meus escudos. Também é onde guardo uma vida de recordações, impressa em papel foto. Lá também tenho cartas velhas de meias-palavras e meias soquetes. Deitado em frente à gaveta delas... Tem um grande amor.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Lua com saudades, por favor

Ontem a lua tava f**** em São Paulo! Me fez lembrar que sempre a quis. No sentido de querer mesmo, meter a mão, cheirar. Pedi um dia pro meu pai. Ué, eu queria. Na vertigem de seus 1.60 de altura, ele me disse que não alcançava não. Eu sugeri a escada. Ué, eu queria.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A milhão

Noiva há mais de um ano, passava longe de ser neurótica. Minha hora ia chegar.
Quem sempre amou tanto dormir - tanto que chegava a passar os pés, deitada, no colchão só pelo prazer de senti-lo -, tem insônia há três noites.
A sorte é poder contar com claros indícios de não gravidez, como a pílula em dia, tudo em dia. Porque, se fosse contar só pelos sintomas... Quem sempre amou tanto comer - tanto que chegava a ir ao cinema só pela pipoca com manteiga de lá -, agora sofre com náuseas, enjoos, não consegue mais ver revista no taxi.
Ando estranha? Não, né... Minha ansiedade sempre foi dita (por mim, em entrevistas de emprego) como meu pior defeito. É muita chegada, sabe? Tudo chegando.

domingo, 17 de outubro de 2010

Manhê

Companheira...
Que, em um momento tão difícil da vida, me deu a vida.
Que levantava em plena madrugada e dava uma volta de carro no quarteirão pra me fazer dormir. E que, depois disso, saía de gatinho do quarto pra não me acordar.
Lembro bem do interruptor do quarto... Tinha desenhozinhos e era possível regular a intensidade da luz. Lembro de bonequinhas de pano bem pequenas. E de uma boneca que eu apelidei de Carequinha. Lembro quando a minha cachorrinha Princesa deu cria... E um dos filhotinhos tinha cara de macaco!
Companheira...
De me ensinar a fazer pavê de chocolate e morango, de valorizar a minha ajuda na hora de dobrar as roupas do varal. De fazer listinhas pra eu não esquecer de levar nada na hora de viajar.
Lembro de quando eu deitava no meio das pernas do meu pai no sofá. E de quando minha mãe se formou na faculdade. E eu fui na colação de grau pra aplaudi-la de pé. Ela usava uma blusa de renda branca e uma saia preta, acho.
Lembro de quando morria de medo de doendes! E dormia com ela todas as noites. Pra me fazer sentir melhor, até trocar de quarto me trocou. Fazia cafuné até eu pegar no sono, pra me mostrar que sempre teria alguém ali pronta pra me salvar.
Companheira...
De me ensinar tudo sempre, sem medo, me passando confiança e segurança. De me emprestar livros sobre sexo e drogas. De suportar minha pré adolescência dramática!
Lembro que fazíamos brigadeiro. E ela me dava a panela pra raspar. Lembro de irmos ao shopping como amigas gastadeiras.
Companheira... Forte. Que sobreviveu a tempestades horríveis.
Companheira, melhor amiga, meu cantinho, meu colo, meu alívio. Ela é tudo pra mim. Por quem daria a vida. Por quem sempre zelarei. Pra quem daria a felicidade se fosse assim tão simples. Pelo menos, para quem me esforço a dar momentos felizes. À quem me espelho. Quem admiro tanto que até dói. De quem sinto mais saudades. À quem devo lembranças de um passado tão delicioso. Com quem mais amo conversar.
É pra ela que olho pra saber como serei daqui uns anos. Isso sempre me deixou em paz com meu futuro... Serei especial e linda. Perfeita até nas imperfeições.

Mãe, feliz aniversário! Que o seu dia seja ensolarado e cheio de sorrisos. Porque são risadas iluminadas que te desejo hoje, minha maior e melhor companheira. Te amo mais!!! E como é bom ter você.